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Arremesso na Sexta #1: Noite na Cozinha



Subia pouco ao andar de cima. Morando numa suíte, cuja porta ficava a talvez uns dois metros da entrada da cozinha, raramente sentia necessidade de subir, e, de fato, subia pouco. Todos os outros habitantes da casa – tio Eduardo, tia Regina, primos Breno e Diana – moravam em cima, do que se conclui que lá era o território deles, e, embora não me fossem estranhos e de forma alguma meu acesso lá fosse vedado, subir seria sair de meu espaço, de meu país, meu querido andar térreo deserto e frio, exceto pelo movimento ocasional e sempre alternado de habitantes da casa na cozinha, foco de reuniões casuais pela madrugada. Daí que tínhamos um distrito comum – a cozinha – e dois países: o térreo, aquela nação árida cuja população se concentra numa capital razoavelmente respeitável, porém visivelmente decadente e modorrenta, e o primeiro andar, um país moderno, populoso, onde as coisas acontecem. Enfim, disso tudo o que pretendo resumir é que eu subia pouco ao andar de cima.

Certa vez, inventei de fazer um café já depois das onze da noite. Estava anormalmente elétrico, embalado por uma noite recheada de futebol e muitos ganhos com apostas esportivas, e, sem olhar o relógio, dei-me ao trabalho de esquentar água, jogar o pó a fim de cozinhar o café, coar a mistura e beber. Eis que surgiu Breno, de olhos vermelhos, entrando na cozinha sem dizer palavra e abrindo a geladeira, escavando-a sem pena para arrancar uma água com gás que eu nem imaginei que existisse por ali.

— Sem sono? — perguntou.

— Nunca fui de dormir cedo — respondi, com um meio sorriso. — Estava fazendo umas apostinhas no futebol, estou sem sono nenhum.

Ele estava surpreso.

— Você aposta? Eu também estava jogando agora — ele riu. — perdi trinta reais no jogo do América.

Disposto que estava e incentivado pelo café, comecei a perguntar-lhe sobre suas táticas, em que havia jogado, quanto aplicava, como fazia. Conversávamos muito sobre futebol, às vezes ele me chamava para ver notícias sobre algum campeonato obscuro, normalmente do leste europeu ou da África. Mas, mesmo depois de um ano morando na mesma casa, nunca um soube que o outro apostava, até aquele momento.

Bom, a conversa engrenou, ele aceitou tomar o resto do café, e talvez meia-noite e meia ou uma hora da manhã, tio Eduardo apareceu em seu velho roupão – ah, até no roupão ele soava acadêmico! – e nos brindando com um olhar meio lampeiro, meio desconfiado.

— Fazendo o que a essa hora, jovens? — perguntou. — Tomaram café ainda? Não vão dormir tão cedo.

Era curioso ouvir essa meia-queixa dele, sendo que era provavelmente o mais notívago de todos os moradores da casa. Totalmente atrapalhado com as tarefas de escritor, professor, dono de casa e colunista político de um jornal qualquer, tinha o relógio totalmente desregulado, ora dormindo cedo e acordando no meio da madrugada, ora passando a noite em claro e caindo num sono pesado ao amanhecer. Não era incomum que eu o ouvisse batendo panelas na cozinha precisamente no horário em que descera naquele dia.

Bom, foi o que ele havia exatamente ido fazer: improvisar uma refeição noturna. Enquanto eu e Breno terminávamos o café, ele se dedicou a descongelar feijão, e Breno decidiu ir dormir. Óbvio que a cafeína não o deixaria fazê-lo e que ele passaria mais uma hora e meia ou duas surfando na Internet, ou jogando, ou se dedicando a escrever um livro sobre um futuro cyberpunk distópico do qual eu ouvia falar há meses e que parecia não haver ido além do prólogo.

— Não dei um bom exemplo a esse menino — disse Eduardo, em tom inexpressivo. — Esse gosto dele pela noite tem atrapalhado muito no trabalho.

— É só ele arranjar um trabalho que seja home office — respondi, rindo.

Ele deu um riso curto.

— Andei pesquisando sobre aquele assunto que você me falou ontem, a questão do novo gasoduto no Oriente Médio — continuei. — Esse intervencionismo da Rússia parece real mesmo.

— Não parece, é! — se havia alguns assuntos que fariam Eduardo mudar um pouco o tom de voz, um deles era a política. — Não tem cabimento isso. As desculpas estão cada vez mais esfarrapadas, eles só estão inventando argumentos falsos para não perder o monopólio do fornecimento de gás para os países mais ao norte! O Catar é a grande vítima desse processo.

Eduardo poderia falar sobre horas dos tópicos que o interessavam na política, fosse local ou internacional, mas eu, após alguns minutos, não tinha mais tanta paciência, o corpo cansado reclamava e decidi tentar reverter o café com um chá de camomila duplo. Enquanto esquentava a água e Eduardo, entre as garfadas finais de seu inusitado prato de feijão, questionava o intervencionismo das potências mundiais, apareceu Diana, com a cara aparentemente do avesso, uma expressão enjoada e a mão na barriga.

— O que houve, minha filha? Você está com uma cara péssima — disse Eduardo, em sua delicadeza habitual.

— Dor de barriga e enjoo. Não sei o que é isso, é a terceira vez esse mês que eu tenho — dizia ela, enquanto enchia um copo com água.

Após perguntar se ela precisava de algo e receber uma resposta negativa, saí da cozinha, com meu chá em mãos. Diana certamente tomaria um remédio para enjoo, ou para repor a flora intestinal, ou ambos. Ela tinha uma relação íntima com os comprimidos: tomava analgésicos três a cinco vezes por semana por motivos diversos e usava remédios convencionais para tratar o que quer que fosse. Enfim, não era de minha conta. Ao fechar a porta do quarto, escutei Eduardo colocando o prato na pia.

Eduardo, certamente, iria fazer alguma de suas várias atividades antes de dormir e invadiria o dia dormindo; Breno provavelmente faria um rodízio das atividades que mencionei mais acima e pegaria no sono só umas duas ou três horas da manhã, acordando à força para se arrastar ao trabalho; Diana, com seu desarranjo, não conseguiria voltar a dormir e se dedicaria a assistir um filme ou seriado, que fatalmente só terminaria ao alvorecer. E Regina, ah, tia Regina, essa tinha um relógio biológico perfeito. Dormia sempre entre nove e dez da noite e acordava cedinho, sem despertador, levantando da cama diretamente para um alegre bate-panelas na cozinha, que normalmente me acordava, mas nunca reclamei, pois ao sair do quarto sempre encontrava café pronto e uma conversa animada sobre seus estranhos sonhos, a cada dia mais criativos.

Terminei meu chá sem pressa, mas não senti sono. Iniciei novamente o computador, pensando no que faria exatamente: filmes, jogos, apostas, escrita... as opções pululavam, e o relógio, meu amigo, parecia dar uma piscadela para mim, pedindo que eu ficasse mais uma ou duas horas acordado. Em alguns minutos, parei de ouvir qualquer ruído na cozinha. Eu estava de novo em meu país, o andar térreo, amplo, frio, árido e meu. Eu subia pouco ao andar de cima.

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