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GRITO DOMINICAL #5: SER SARGENTO PRA QUÊ?

            Certo dia o cabo Guedes despediu-se dos camaradas, após árdua jornada. Para azar militar da sentinela, que pensou que pudesse tratar o cabo simplesmente como cabo que era, foi admoestada. Tempos mais tarde, o cabo, que continuava ostentando suas divisas com pouco orgulho e muita arrogância, teve um dedo de prosa com aquele mesmo soldado. “A conversa foi boa...”     O cabo adentrou ao corpo da guarda cuspindo fogo! - Ser sargento pra quê? – esbravejou em altíssimo e bom tom, ao notar que o soldado preenchera uma ficha de inscrição para seu segundo concurso público. Tal foi o grito, o cabo, que tinha dezenas de folhetos de propaganda de filmes nas mãos, só pensava em entreter-se em cinema, numa frustrante tentativa de driblar as angústias do dia a dia na caserna, só não disse “SER SARGENTO PRA QUÊ? (em letras garrafais itálico negrito sublinhado entre aspas) porque a conversa não se deu por escrito. - Ora, sen...

Sábado Cinza-Azulado #28: Acende-nos A Luz

- Uma garrafa de Martini, uma de vodka, uma de cachaça Caribé, dois maços de Carlton, um mistão de carne do sol, picanha, frango e porco, o maior quarto daqui e o que tiver de GP na casa -, informou o garçom da casa noturna ao gerente, que também era dono do recinto, sobre o largo pedido de um cliente. - Caramba! Esse tá endemoniado. Tudo bem, então manda as quatro GPs que temos. Será que são o bastante? O garçom, meio sem jeito, e ainda assombrado com o pedido do homem na mesa menos iluminada da casa, detalhou melhor o que ele desejava: - Chefe, ele não quer só “as” GPs. Ele quer todo mundo. - Mulher e homem? - espantou-se o gerente, mais pela ânsia do cliente que pela sua preferência sexual. - Mulher e homem, homem e mulher. A ordem não importa. Inclusive, ele me pagou isto aqui, ó! - disse e mostrou um bolo de dinheiro que, contado depois, daria a soma de cinquenta mil reais. - E o que você está esperando, mizera? Adiante o lado do cara! -, respondeu ao g...

Arremesso na Sexta #18: Talvez a Vida Esteja a Mil

Juliano tragou longamente o cigarro, exalando preguiçosamente a fumaça para o céu gélido. Da sua janela, nada podia ver senão casas cobertas de neve e uma rua quase que completamente vazia.   Acostumara-se. Em seu terceiro inverno no estrangeiro, já deixara de se surpreender com a brancura reluzente da neve e de se chatear com as dificuldades que ela provocava no cotidiano. De sonho fantástico, a neve passara a estorvo, e agora, basicamente era algo pelo que Juliano nutria apenas sentimentos tênues e conflitantes, beirando a total indiferença.   Sua vida era indiferente. Pensou sobre a letargia que o dominava em alguns aspectos enquanto voltava o olhar para dentro de casa e localizava a caneca de café fumegante. Tornava-se mais e mais indiferente em relação à família. Os contatos com os familiares no Brasil eram cada vez mais restritos a um minúsculo grupo de parentes mais próximos, e, ainda assim, cada vez menos frequentes.   A família havia deixado ...

Prosa de Quinta #15: Apartamento 23

Dizem que o universo tem um grande senso de humor, e quando sonhos se realizam, parecem um pesadelo. Porque ter o que se deseja sempre vem com condições. [ Gossip Girl ] 1 Com frequência, a menina vagava pelos corredores, ninando a amiguinha de pano; às vezes, parava em algum ponto do caminho para escutar os ruídos do velho hotel e, claro, as conversas dos vizinhos; arteira, batia nas portas dos apartamentos e saía correndo — meros mecanismos para acabar com o tédio de uma garota de nove anos. E, mais uma vez, lá estava ela acalentando sua boneca enquanto ziguezagueava pelo corredor do sexto andar. — É um imponente prédio de oito andares, construído no pós-guerra — uma voz ecoava pela escadaria. Era a voz de Carlos. Como de costume, ele oferecia informações aos novos residentes. — Senhor e senhora Albuquerque — dizia Carlos, carregando as malas. — Há rumores que este hotel realiza sonhos. O próprio arquiteto Franz Leornad de Betivolio, amigo da família Sarutobe, voltou a...

Segunda Crônica #4: O Banco Alto do Ônibus

O vento soprou de forma fria, penetrando as duas camadas de tecido que me protegiam. Vestia uma camisa regata e por cima dela uma blusa de manga- bem maior do que eu - com a estampa do Zé Carioca, que equilibrava o peso de seu corpo em um guarda-chuva. Juntos, os tecidos daquela roupa não superavam a grossura da calça jeans surrada que eu usava. Mas acredite: aquela era a melhor roupa que tinha para me proteger do frio. Quando passamos em frente a um laboratório de exames clínicos a caminho do ponto de ônibus, levantei os olhos para encarar o painel digital que indicava 20°. Envolvi a mim mesmo em um abraço passando a mão pelos braços na tentativa de me aquecer. - Ainda vai demorar muito pra chegarmos em casa, mãe? Ela balançou a cabeça negativamente e eu levantei os olhos mais uma vez para encarar o painel digital, que agora dizia ser 22h42. Não sabia bem o que aquilo queria dizer, na escola eu tinha aprendido a ver as horas, mas não daquele jeito. Sab...